Uma Aula com Muitas Bolas Dentro


Nem calculam como esta manhã foi agradável surpreender na Escola, a minha filha, os seus colegas e a Professora.
A ideia do texto de ontem funcionou como pretendia.
Reuni vários tipos de bola para levar (como poderão ver pelas fotos abaixo), e já na Escola coloquei-as expostas numa mesa.
Havia bolas de todas as cores e estilos, para todos os gostos e com diversas utilidades, tais como: bola de futebol, bola plástica infantil com desenhos, bola insuflável, bola rebenta balões, bola de ténis, bola de ténis de praia, bola saltitona, bola de brinde das máquinas de vending, bola de golfe, bolinhas de sabão, bola vela de Natal, bola de enfeitar pinheiro de Natal, bola de madeira de cheirinho, bola com luz led que varia de cor, balão já pouco cheio com a forma de uma bola, colar comprido com bolinhas pequeninas coloridas, colar com bolas tipo pérolas rosadas, colar com bolas de feltro coloridas, colar infantil com bolinhas coloridas, pulseira infantil com bolinhas coloridas, par de brincos com pendente terminando em mini-bolas de ténis, mini-pompons coloridos de feltro, anel com predrinhas em forma de bolinha, uma anjo de Natal com cabeça feita com bola de ping-pong, desodorizante Axe roll-on que contém uma bola no interior (como a maioria dos roll-on), fralda descartável infantil que quando se desfaz cria uma espécie de bolinhas de gel, uma bola decorativa tipo novelo de vime, uma bola decorativa redonda com um relevo desenhando o Pai-Natal, uma bola anti-stress, fita de cabelo com bolas feitas de pompons, queijo flamengo em forma de bola, kiwi em forma de bola, noz com formato de bola, Chocapic de bolinhas de chocolate branco e negro, bola de chocolate natalícia, rebuçado bola de neve,…
Haveria muitas outras bolas para poder expôr, tais como: bola de berlim (bolo), bola de berlim (de jogar), bagos de uva em forma de bola, gelados de bola, bola de basquetebol, bola de voleibol, um novelo de lã redondinho, bolas de algodão, bola de rato de computador, botões em forma de bola…

As crianças abeiraram-se da mesa de exposição e organizadamente, uma a uma, foram observando as bolas sem lhes tocar.
Questionei-os se conheciam todos aqueles tipos de bola. O Rodrigo perguntou-me para que servia uma em específico, ao que respondi tratar-se de uma bola rebenta balões.
Perguntei-lhes se sabiam a utilidade da bolinha de madeira, mas tive de lhes explicar que era para dar cheiro na roupa, e aí houve um ou outro aluno que se lembrou que lá em casa também teriam nos seus armários.
Achei curioso que ninguém estranhou a presença de uma fralda, e quando questionados porque eu a trouxera, tudo ficou na espetativa de ser eu a resolver a “charada”.
Eu compreendo que esta questão era das mais difíceis, pois nem todas as crianças têm irmãos bebés e nem todas as fraldas se deterioram desta forma que resulta em bolinhas de gel.

De seguida solicitei à Professora Mercedes que me ajudasse a formar dois grupinhos, encabeçados pelas manas gémeas Mafalda e Margarida. O grupo dos meninos ficaria com a Margarida e o dos meninas com a Mafalda.
As folhas das atividades para hoje já estavam impressas.
Era só deitar mãos à obra.
E de imediato coloquei as gémeas Mafalda e Margarida a lerem o texto “A bola”. Era importante que só lessem uma vez e que retivessem na memória a história e que depois de criança em criança e dentro de cada grupo fosse passando a mensagem em forma de sussuro num estilo do jogo telefone avariado.
Enquanto contavam ao ouvido uns dos outros o que julgavam ter ouvido do colega anterior e o que se lembravam, fiz com que no grupo das meninas fossem passando uma bola plástica infantil com desenhos da Cinderela, e no grupo dos meninos enquanto narravam a história ao ouvido, passavam uma bola de futebol pelas mãos do colega que se seguia.
Da bola nunca se esqueceram, já da história…
Ora vejamos os resultados:
O grupo das meninas terminou na Ana Rita com a seguinte frase:
“Um amigo convidou os seus amigos para irem a uma festa.”
E o grupo dos meninos terminou com o Danilo proferindo a mais bela frase desta manhã, mas que como podem analisar nada tem a ver com o texto:
“Todos os dias a minha mãe flutua no amor!”

Resumindo…
Mesmo depois de mostrar a todos os alunos dezenas de bolas, e mesmo sendo o texto com o título “A bola” e com tantas vezes nele repetida a palavra bola, e nem com as bolas que passaram de mão em mão durante a passagem da mensagem, nem assim nenhuma criança deu especial atenção a isso a ponto de na frase final incluir a palavra bola.
Coloquei duas meninas gémeas com bons e similares resultados académicos a iniciarem o jogo, separei as restantes crianças por sexos (embora os meninos estivessem em maioria), mas o resultado foi parecido pois ninguém se aproximou da temática do texto.
No final do jogo a Professora escreveu no quadro de lousa as frases resultantes, e eu pedi à minha filhota que lesse o texto em voz alta para todos os colegas.
Revejam aqui o texto, mas desta feita fiz-lhe ligeiras alterações para este se adequar melhor ao ensino do português de Portugal.

Para didática do português do Brasil, convém usar o texto original o qual se encontra no meu post anterior.
Agora sim, perceberam o quão longe estavam da ideia basilar deste poema.
Terminei o jogo perguntando-lhes se a bola com desenhos contava uma história. Quase em uníssono disseram contar a da Cinderela. Já quanto à de futebol disseram nada contar. E eu contrariei-os, dizendo-lhes que todas as bolas contam uma história, contam a história da infância da criança que brinca com ela, ou de outras vidas de quem com ela joga.
Disse-lhes que a bola não existe desde sempre, e fiz-lhes refletir como seria a vida dessas crianças que não tinham bola para brincar e até das que hoje também não têm.
Depois, olhando para os objetos da sala de aula, pedi que me referissem aqueles que tinham a forma de bola. Muito bem responderam: globo terrestre e a cabeça duns anjinhos mobile.
E eu acrescentei que tanto os meninos como as meninas têm sempre consigo duas bolinhas e apontei para os olhinhos vivaços das crianças.

Como moral, pretendi que entendessem que devemos ter cuidado com o que dizemos e também com o que ouvimos e tentamos reproduzir, e isto porque “quem conta um conto acrescenta um ponto”, e quando pensamos que tudo o que dizemos ou ouvimos é verdade, temos que nos lembrar que por vezes sem querer talvez por ouvirmos mal ou termos outro entendimento da realidade, acabamos por distorcer essa suposta veracidade de fatos.
Além disso quis que ficassem com a ideia de que a bola que passou de mão em mão só serviu para os distrair, e que quando estamos na aula ou em casa a estudar, temos de estar dedicados ao que fazemos sem ter distrações de maior por perto, sem estarmos sempre a brincar com a caneta nova ou a afia engraçada, e de preferência tendo somente na mesa os objetos necessários à elaboração das atividades escolares propostas.

Mas as surpresas não terminaram, e as restantes atividades vêm descritas no post seguinte.

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